Circulo do Desenvolvimento

Pleno Emprego e Cidadania

EUA e UE têm 77% dos ativos globais

Postado em 10 de Novembro de 2008

*Por Rogério Lessa

Concentração financeira em poucas mãos potencializa riscos da crise atual

Segundo o economista francês, Claude Sefarti, da Université Versailles-Saint Quentin-em-Yvelines, os Estados Unidos e União Européia (UE) detêm 77% dos ativos financeiros mundiais. Ou seja, a crise financeira atual tem potencial ainda mais explosivo do que os fortes estragos já causados.

Para o Sefarti, o mundo está assistindo a um processo de compartilhamento da hegemonia mundial. Segundo ele, UE, EUA e até Austrália e Nova Zelandia estariam se unindo numa coalizão “transatlântica”, concentrando cada vez mais o controle dos ativos financeiros mundiais:

“A UE também segue parceira dos EUA no caminho imperialista e conta com enorme poder financeiro: somados, detêm 77% dos ativos financeiros mundiais. Então, o capital financeiro não pode ser identificado apenas pelos EUA”, disse.

Para dar uma idéia da concentração de riqueza no mundo, Sefarti que participou, mês passado, do III Fórum Universitário do Mercosul (III FoMerco), em Boa Vista (RR), afirmou que o PIB europeu equivale a 23% do PIB mundial, embora sua população não passe de 7% do total.

“Houve polarização da riqueza financeira no mundo, com os EUA detendo 36% e a União Européia 33% dos investidores individuais mais ricos - os que investem mais de US$ 1 milhão.

Ainda segundo Sefarti, os mais ricos da América Latina detêm 5% de toda a riqueza financeira mundial, o que não é desprezível: “Isso só é possível devido à enorme concentração da riqueza na região, cuja economia está longe de se equivaler à da Europa ou dos EUA”, resumiu.

 No encerramento do III Fórum Universitário do Mercosul (III FoMerco), realizado em Boa Vista (RR), o economista Claude Sefarti, da Université Versailles-Saint Quentin-em-Yvelines/França, afirmou que o verdadeiro significado da comunidade européia é o recrudescimento do imperialismo e da luta contra o trabalho.

Junto com os EUA, os europeus detêm 77% dos ativos financeiros mundiais. Para Sefardi, existe uma coalizão transatlântica, militar inclusive, entre poucos países industrializados, sustentada por interesses de rentistas, para quem a desregulação econômica mundial é conveniente:

“Significa que os Estados nacionais não estão sendo dissolvidos com a chamada globalização. Pelo contrário. O capitalismo de mercado requer pouca regulação. É o retorno dos mercenários, agora legitimados pelos Estados públicos. A economia está cada vez mais dissociada da política e das atividades sociais. Antes considerado um bem público, o conhecimento hoje está sendo privatizado. Até as sementes da Amazônia têm sido patenteadas, inclusive por países como o Japão”, criticou, ressaltando que a mundialização (definição que os franceses preferem para definir a unificação dos mercados mundiais, em vez de globalização) é um processo extremamente desequilibrado no qual existe também coerção física. “ 

Império financeiro

Para Sefarti, os processos de integração regional não podem ser repetidos de uma região para outra. O processo histórico tem de ser respeitado: “Até porque, a União Européia também segue parceira dos EUA no caminho imperialista e conta com enorme poder financeiro. Ou seja, o capital financeiro não pode ser identificado apenas pelos EUA.”

De acordo com o economista francês, o PIB europeu equivale a 23% do PIB mundial, embora a população não passe de 7% do total: “Houve polarização da riqueza financeira no mundo, com os EUA detendo 36% e a União Européia 33% dos investidores individuais mais ricos - que investem mais de US$ 1 milhão).”

Na América Latina, a desigualdade de riqueza é flagrante: embora a região seja pobre, os ricos latino-americanos detêm 5% de toda a riqueza financeira mundial:

“Não é uma participação desprezível. Isso só é possível devido à enorme concentração da riqueza na região, cuja economia está longe de se equivaler à da Europa ou dos EUA.”

 Globalização armada 

Sefarti frisou ainda que os rentistas são unidos pelos próprios interesses, “contra os trabalhadores, que permanecem separados por fronteiras”. Para ele, o maior atributo para o poder financeiro é o poderio militar:

“A agenda da segurança é nova e transatlântica. Não é limitada pelo espaço territorial, mas definida pelo grupo de ricos, daí incluir os ricos de Austrália e Nova Zelândia.”

O economista sustentou que a escalada dos gastos militares, que fazem parte da agenda de segurança transatlântica, tem fraca justificativa e depende da criação de um inimigo:

“Atualmente, até a nacionalização de recursos naturais pode ser encarada como ameaça aos países ricos.”

Pelos números apresentados pelo francês, conclui-se que o investimento em armas tornou-se prioridade nos países desenvolvidos.

“Em 2000, os gastos militares cresceram 50%, não somente nos EUA, mas também em Europa, China, Índia, Taiwan etc. Após o 11 de Setembro, passamos a viver uma globalização armada. E estamos prestes a ter diversas tensões militares, como já estão ocorrendo na Geórgia e Venezuela.”

Dinheiro gera dinheiro

O capital financeiro, lembrou Sefarti, não produz nem leva em consideração as conseqüências sociais: “É dinheiro gerando dinheiro. Os fundos de pensão fazem parte desse jogo. Até os produtores de carros e eletrodomésticos cada vez mais direcionam excedentes para valorização na bolsa e depois promovem demissões para remunerar os acionistas.”

Como agravante, citou o fato de que boa parte da receita financeira dos países ricos é extraída dos menos desenvolvidos. O francês advertiu que a classe rentista é pouco contestada nos países mais desenvolvidos, porque, lá, a renda financeira gera demanda por não estar tão concentrada como nas regiões periféricas:

“O rentismo é uma das explicações para o fato de os trabalhadores suecos ganharem cerca de sete vezes mais do que os da Lituânia. Na visão econômica dominante, a integração regional passa por etapas como as uniões aduaneiras, fiscal e monetária até chegar à integração total. Isso requer administração supra-nacional para os Estados-membros, que têm de se submeter às mesmas políticas econômicas.”

Luta contra o trabalho

“É preciso refletir sobre o que significa, realmente, integração mundial a partir da experiência da União Européia. Inicialmente, ela foi motivada pelo espírito do ‘guerra nunca mais’, mas logo França e Alemanha passaram a desempenhar papel ativo. Nos negócios, a idéia era reduzir impostos e salários para defender-se dos estrangeiros.”

No final dos anos 70, essa corrente começou a ganhar força. Tanto que, segundo o economista, o custo do trabalho como parcela do valor agregado, que tinha chegado ao pico, cai dramaticamente a partir da década seguinte.

Além disso, mesmo a criação do euro não teria sido, na visão do francês, uma necessidade institucional: “O processo foi político, movido por França e Alemanha. As populações foram afastadas do processo de integração. Toda vez que há convocação para votar alguma coisa, o ‘não’ vence. O processo de criação da União Européia foi anti-democrático”, insistiu, classificando o imperialismo europeu como sui generis.

Isso porque, na visão de Serfati, a Europa não se incomoda, se os direitos humanos vigentes no continente não sejam válidos para os imigrantes oriundos dos países mais pobres:

“Ataques preventivos contra outros países são admitidos, detenção de imigrantes por até 18 meses também. Tudo isso é conseqüência do fato de que os EUA, sozinhos, não podem reger o mundo como império no sentido tradicional do termo”, disse o francês.

Para ele, em breve ficará evidente que o Afeganistão é muito mais importante do que o Iraque na geopolítica do Hemisfério Norte.

“Lá estão 53 mil soldados, metade europeus. Isso evidencia que os EUA precisam da coalizão por razões políticas e militares. E essa aliança é duradoura, porque envolve Estados nacionais que têm mesmos objetivos e valores”, alertou.

* Rogério Lessa: Jornalista do Monitor Mercantil, colaborador da revista de resumos Rumos do Desenvolvimento. Prêmio Corecon - RJ de jornalismo econômico 2006.

Faça um comentário

XHTML: Você pode usar essas tags: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>