Entenda, Transposição do Rio São Francisco
Postado em 18 de Julho de 2008
Entenda, Transposição do Rio São Francisco.
O Natal da discórdia
A Transposição do São Francisco é a grande solução para o desenvolvimento equilibrado do país. Ela é uma condição estritamente necessária para viabilizar a geração de um bom volume de empregos de qualidade no sertão e assim permitir que a perspectiva de crescimento futura não gere o mesmo padrão de desenvolvimento regional e social desequilibrado tão característico da nossa história.
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Por: Gustavo Antônio Galvão dos Santos e Eduardo Kaplan Barbosa *
O Nordeste em 1900 era a ainda a região mais populosa do país e São Paulo tinha uma população inferior à metade de Minas Gerais. Hoje a população de São Paulo se aproximada da população de todo o Nordeste e Minas tem uma população que é menos da metade da paulista. Isso foi o resultado de um século de desenvolvimento desigual. A manutenção da desigualdade social e a grande dificuldade de impedir a deterioração da qualidade de vida nos grandes centros foi o maior problema do processo de desenvolvimento do país entre 1930 e 1980.O desenvolvimento econômico se concentrou nas regiões metropolitanas. Ele não foi capaz de gerar empregos suficientes no interior e principalmente no Nordeste. Conseqüentemente, o crescimento gerou um brutal êxodo rural. Dezenas de milhões e pessoas migraram dentro do país em busca de emprego. Elas sobrecarregaram a infra-estrutura urbana e os serviços públicos. Criou-se assim o grande mundo das favelas brasileiras.Esse profundo êxodo é conseqüência da alta concentração das atividades produtivas. Concentradas em poucas regiões essas atividades não poderiam empregar a todos. Assim, o êxodo permitiu que os salários permanecessem baixos apesar do crescimento da demanda por trabalho.
Nos últimos anos, a atividade produtiva se desconcentrou. O Sul é hoje quase tão industrializado e agrícola quanto São Paulo, o Centro, Sul e Oeste de Minas busca. acompanhar. O Rio de Janeiro se beneficiou da grande expansão da produção petrolífera. O Espírito Santo está se desenvolvendo rapidamente devido a condições logísticas e naturais propícias ao desenvolvimento industrial, extrativo e agrícola. O Centro-Oeste segue um crescimento veloz amparado por uma agricultura empresarial bastante eficiente. Em muitas de suas regiões está alcançando renda per capita próximas à paulista. O Norte ainda está atrasado, mas a pequena população e seu grande potencial econômico levam a crer que os avanços econômicos das últimas décadas pode gerar qualidade de vida, se o êxodo para a região se reduzir.
O desequilíbrio regional brasileiro está deixando de ser uma questão de São Paulo X Brasil para se tornar Brasil X Nordeste. O Nordeste continua a ser uma região sem grandes perspectivas de desenvolvimento econômico e social mais significativo, apesar dos avanços decorrentes dos programas assistenciais.
Por que? Normalmente considera-se que o Nordeste é pobre em decorrência dos latifúndios e da oligarquia política. Isso não é verdade. Todo o Brasil, incluindo São Paulo foi a terra dos latifúndios e da oligarquia política. Os latifúndios do Centro-Oeste sempre foram e continuam sendo incomparavelmente maiores do que do Nordeste. O que mudou nas outras regiões? As condições propícias ao desenvolvimento econômico viabilizaram uma espécie de “revolução capitalista”, nessas regiões, que permitiu a melhoria das condições sociais, políticas e econômicas. Claro que algumas regiões avançaram mais do que outras.
O problema é que sem infra-estrutura hídrica não é possível o desenvolvimento de atividades produtivas modernas e, portanto, o Nordeste não consegue desenvolver uma “revolução capitalista”. A velha oligarquia mantêm assim sua força baseada no poder de controlar votos de cabrestos e assentos no congresso. Quanto mais alienado e dependente for o eleitor melhor.
Por diversas vezes, a argumentação contrária à Transposição está baseada no romantismo retrogrado que ver o sertanejo sempre com aquele terninho de couro caçando cabras e calangos no sertão.
Romantismo para os outros, porque esses defensores da “vida simples do sertão” adoram ter água encanada, luz elétrica, máquina de levar, geladeira, computador, automóvel, celular, dinheiro para viagens no exterior, etc. E não comem calango nem amarrados.
Nós do Desemprego Zero acreditamos que o sertanejo tem o direito de ter uma vida assim também, se quiser, e que não precisa emigrar para o Rio ou para São Paulo para poder lutar por isso.
Existem dois principais argumentos contrários à Transposição, baseados em argumentos técnicos. O primeiro é que o Nordeste já tem muitos açudes. O segundo é que existem plantas e animais resistentes à seca que poderiam ser melhor utilizados.
Vamos à realidade:
1) Como o Carlos Lessa disse no debate que ele fez com o César Benjamin na ABI, esses estoques de água em açudes têm uma capacidade de utilização muito pequena, porque as atividades diretamente humanas e econômicas precisam de fonte de água contínua e confiável. As chuvas no Sertão são concentradas em poucos meses e não se sabe ao certo quanto choverá no verão seguinte. Portanto o fluxo contínuo permitido para utilização diretamente humana e econômica é muito pequeno, pois se você constrói toda uma estrutura de abastecimento e consumo de água dependendo do estoque existe e das chuvas do ano seguintes ficará muito vulnerável. Se no ano seguinte chover menos do que o esperado, toda a estrutura de abastecimento de toda a economia que depende de água entrarão em colapso. Sabendo disso, ninguém vai investir em gerar empregos no sertão se tiver que depender das chuvas para que o negócio não pare. Nem em sistema de abastecimento será investido alguma coisa. Sem falar da grande perda de água por evaporação. Mas esses açudes poderão ser utilizados com muito maior eficiência, se houver a garantia de que eles estão interligados a uma fonte permanente de água. A Transposição interligará uma rede de açudes ao São Francisco e isso permitirá utilizar a água do açude em maior volume e com maior confiabilidade. A própria água da chuva poderá ser utilizada em muito maior volume em decorrência da Transposição.
2) O autor do artigo cita como “alternativas” para o sertão a “caprinocultura, caju e suas castanhas (sic), de larga aceitação no exterior, umbu, cera da carnaúba, fibras vegetais como o caroá, sisal, algodão [arbóreo, porque o algodão normal não sobrevive na seca]“. Ora, essas atividades podem sim ser melhor aproveitadas no sertão, mas todas elas já existem há décadas ou séculos lá e nunca melhoraram a vida das pessoas. Poderiam ser aperfeiçoadas? Sim. Mas isso significaria um pequeno acréscimo na renda baixa do sertanejo. Doze milhões de sertanejos não podem sobreviver dignamente produzindo mercadorias como cera de carnaúba ou fibra de caroá. Toda a demanda mundial poderia ser atendida com alguns milhares de trabalhadores. Não há demanda desses produtos em todo o Universo nos próximos 100 mil anos para gerar empregos de qualidade para todas essas pessoas. Celso Furtado já disse há mais de 50 anos que a solução do Nordeste é a industrialização e não a agricultura pouco intensiva do semi-árido. Mesmo em Minas, São Paulo e Sul, onde há abundância de águas e terras férteis, fração muito pequena da população vive da agricultura. Mesmo, na Argentina que possui as terras mais férteis do mundo, uma fração muito pequena da população vive da agricultura. Só pode ser romantismo retrógrado imaginar que 12 milhões de pessoas possam viver com um padrão de vida desejado vendendo cera de carnaúba ou suco de umbu. Nem se o umbu fosse a fruta mais desejada do planeta!
A transposição é o passo que falta para viabilizar a infra-estrutura produtiva mínima que garantirá vida aos bolsões de desenvolvimento capitalista no sertão que aliados aos bolsões do litoral poderão alterar a correlação de forças que sustenta o atraso econômico, social e político da região.
Se o Nordeste for capaz de gerar um grande volume de empregos de qualidade quando o Brasil voltar a crescer e demandar mão-de-obra não qualificada na construção civil, as favelas das grandes capitais não terão uma reposição contínua de migrantes e a infra-estrutura urbana e os serviços públicos de qualidade poderão ser universalizado em todo o país. Poderemos assim acreditar realmente no sonho de uma vida digna, saudável e feliz para todos nós. Brasileiros.
PARA LESSA, NORDESTE SERÁ CALIFÓRNIA BRASILEIRA ( !! )
EX-PRESIDENTE DO BNDES diz que Transposição do São Francisco mudará de vez a vida na região
*Carlos Newton da Tribuna da Imprensa 07/01/2008
O economista Carlos Lessa, ex-presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico (BNDES), defende o projeto de transposição das águas do Rio São Francisco, afirmando que a intransigente posição do bispo Luiz Flávio Cappio, de Barra (BA), é injustificável e prejudicial à população mais carente do Nordeste.
“A posição de dom Cappio, que já fez duas greves de fome, está baseada em premissas falsas, porque ele entende que, ao invés da transposição das águas, o governo deveria fazer as pequenas obras previstas no chamado Atlas Nordeste, de construção de pequenos açudes e perfuração de poços”, assinala Lessa, lamentando que importantes instituições da sociedade civil, como a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), também incorram no mesmo erro do bispo de Barra.
Segundo o economista, o bispo está equivocado por não levar em conta que grande parte dos poços perfurados nas regiões mais pobres do Nordeste tem resultado em água insalubre, com alto teor de salitre e imprestável para consumo humano, por ser cancerígena e causar cardiopatias, doenças renais e anomalias fetais.
“Justamente por isso, é preciso apoiar a transposição das águas do São Francisco, que vai resolver também os problemas de abastecimento de água em importantes cidades, como Fortaleza, Natal e Campina Grande”, destaca Lessa, que é um dos combativos críticos da política econômica, mas reconhece o acerto do governo na questão do São Francisco.
Motivos
Em sua gestão à frente do BNDES, no primeiro mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, Lessa teve oportunidade de estudar profundamente o assunto e está convencido de que a transposição representará a redenção econômica e social do Nordeste.
“Sob o ponto de vista econômico-social, o Nordeste sempre foi considerado um problema praticamente insolúvel. A omissão de sucessivos governos indicava que a chamada indústria da seca estaria destinada a se perpetuar, motivando uma permanente situação de êxodo em direção aos grandes centros urbanos, especialmente São Paulo e Rio de Janeiro. Mas essa realidade vai começar a mudar, e de forma radical”, diz Lessa.
A seu ver, para garantir um crescimento sustentado à produção agrícola no Brasil, já está comprovado que a alternativa mais viável é o investimento no Nordeste, cujo potencial em termos de agricultura de exportação é espantoso, só comparável ao chamado Vale Imperial da Califórnia, o hectare rural mais valorizado dos Estados Unidos.
Localização
Lessa afirma que essa surpreendente Califórnia brasileira vai surgir no chamado Eixo Norte nordestino - uma vasta região cruzada pelos rios Jaguaribe (Ceará) e Apodi (Rio Grande do Norte), englobando também parte da Paraíba e de Pernambuco. São terras planas, com solos calcários altamente férteis, bem mais propícios à agricultura do que o cerrado. Além disso, há condições ideais de luminosidade, com 320 dias de sol por ano. Só falta a irrigação.
“Dependendo do volume das águas a serem disponibilizadas no projeto de transposição do Rio São Francisco, poderá ser irrigada uma extensão de até um milhão de hectares - ou seja, uma área cerca de 25 vezes maior do que o famoso pólo frutícola de Petrolina, em Pernambuco. Detalhe: na Califórnia brasileira, será de apenas R$ 0,05 o custo do metro cúbico de água para os produtores rurais usarem em irrigação. Fica mais barato do que a água extraída hoje de poços artesianos, que quase sempre é salinizada demais”, acentua.
O ex-presidente do BNDES explica que outra vantagem fundamental é que o Eixo Norte nordestino tem localização estratégica, situado próximo ao litoral, podendo exportar sua produção pelos portos de Natal (RN), Suape (PE), Cabedelo (PB) ou Pecém (CE), para abastecer os mercados da América do Norte, da Europa/Oriente Médio e da Ásia (através do Canal do Panamá), com fretes muito competitivos.
Ao invés de problema, região será solução
O economista Carlos Lessa garante que, com a transposição das águas do Rio São Francisco, ao invés de continuar a ser considerado o maior problema brasileiro, o Nordeste se tornará uma solução. “Suas alternativas são múltiplas, e o melhor exemplo está na produção e beneficiamento de camarões, especialmente no Ceará e Rio Grande do Norte, onde se obtém a maior produtividade mundial. Em 2003, por exemplo, o setor já exportava 62 mil toneladas de camarões, com faturamento de R$ 300 milhões”, destaca.
O ex-presidente do BNDES acrescenta que, em Pernambuco e no Ceará, as plantações de flores ultrapassam 20 toneladas/ano. Ainda nesses estados, a fruticultura se expande cada vez mais em Petrolina, enquanto Sobral começa a se firmar como produtor de vinho. No Maranhão, já se produz em escala empresarial um tipo de mel de excelente qualidade, produzido por uma espécie de abelha brasileira, a Teúba. No Piauí, a associação de cultura simultânea de mamona e feijão caupi mostra ser altamente viável.
“Os exemplos se multiplicam”, diz Lessa, acrescentando que tudo isso representa apenas algumas amostras do potencial do Nordeste como produtor rural, porque a região poderá ter desenvolvimento tão acelerado quanto o obtido pelo Centro-Oeste nas últimas décadas. Califórnia
Quanto ao financiamento do ambicioso projeto, estimado em cerca de R$ 6 bilhões, Lessa afirma que o País tem totais condições de custear a revitalização do Rio São Francisco, que vai gerar centenas de milhares de empregos no Nordeste. “Nesse contexto, a implantação da Califórnia brasileira servirá de pólo multiplicador de riquezas e distribuição de renda, atraindo novas agroindústrias para o Nordeste”, assinala.
Além disso, o ex-presidente do BNDES insiste em enfatizar que o projeto terá dupla função, porque fornecerá também água de boa qualidade para consumo pessoal e uso doméstico, porque grande parte dos poços que hoje abastecem as populações do interior nordestino fornece água excessivamente salinizada, produzindo um quadro verdadeiramente assustador de cardiopatias e doenças renais.
“Essa situação precisa ser revertida o mais rápido possível, porque a implantação da Califórnia brasileira tem de ser marcada não somente pela redenção econômica do Nordeste, mas também pela melhor qualidade de vida de seu povo”, conclui Lessa.
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